A Reforma Tributária do Consumo, estruturada pelos novos tributos IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), introduz alterações significativas na dinâmica de apuração, crédito e conformidade fiscal. Para as empresas de Pesquisa de Mercado, que atuam majoritariamente com prestação de serviços e operações intensivas em mão de obra, tecnologia e contratação de terceiros, a nova tributação exigirá ajustes relevantes nos processos contábeis e de formação de preços.
1. Natureza da Atividade e Enquadramento no IBS/CBS
Os serviços de pesquisa, coleta de dados, análise estatística, inteligência de mercado e consultorias correlatas serão enquadrados como prestação de serviços e, portanto, estarão sujeitos:
- à CBS, de competência federal;
- ao IBS, de competência compartilhada entre estados e municípios.
Por se tratar de uma atividade intensamente imaterial e baseada em serviços especializados, a incidência será uniforme, sem regimes diferenciados, salvo exceções que vierem a ser regulamentadas.
2. Aumento da Transparência Tributária e Impacto no Preço
Com a adoção de um modelo IVA dual, a tributação passa a ser plena, não cumulativa e com débito-crédito integral, o que tende a:
- elevar a transparência do imposto destacado na nota;
- ampliar a previsibilidade do fluxo tributário;
- exigir ajustes na precificação dos projetos, especialmente aqueles de repasse a grandes empresas, onde a composição de custos é altamente analisada.
Empresas que atualmente operam com margens reduzidas ou contratos longos podem sentir impacto direto na competitividade.
3. Créditos de IBS e CBS: Oportunidades e Limitações
A possibilidade de creditamento amplo é uma das mudanças mais relevantes:
1. Entrarão como crédito para empresas de Pesquisa de Mercado:
- despesas com serviços terceirizados (entrevistas, coleta de dados, consultorias);
- aquisição de softwares e licenças;
- contratação de plataformas de análise, CRM e automação;
- despesas com energia, aluguel e insumos administrativos;
- gastos com infraestrutura de TI.
2. Limitações relevantes:
- folha de pagamento não gera crédito, o que representa impacto expressivo, pois a atividade depende fortemente de capital humano;
- despesas com profissionais autônomos poderão ter regras específicas de incidência, exigindo atenção ao enquadramento e ao modelo contratual.
A análise de cenários comparativos entre o sistema atual e o novo será indispensável para dimensionar o impacto real.
4. Regras de Local de Incidência e Prestação de Serviços Digitais
A prestação de serviços de pesquisa pode envolver entrevistados, clientes ou contratos distribuídos geograficamente.
A reforma altera o local de incidência:
- o IBS será devido no destino, ou seja, onde está localizado o tomador do serviço;
- a CBS seguirá regras federais de competência, também orientadas ao destino.
Para empresas que atendem clientes em diferentes estados, isso exigirá sistemas capazes de:
- identificar corretamente a localização do tomador;
- aplicar alíquotas variáveis do IBS, dependendo do ente federado;
- registrar e reportar as informações de forma centralizada, evitando inconsistências no SPED e eventos de fiscalização.
5. Contratos Vigentes, Receita Recorrente e Impactação Tributária
Empresas de Pesquisa de Mercado costumam operar:
- contratos contínuos (painéis, auditorias de ponto de venda, pesquisas recorrentes);
- escopos mensais ou anuais;
- renovações automáticas.
A migração para o novo modelo exigirá:
- cláusulas de recomposição tributária;
- atualização dos KPIs financeiros e margens internas;
- readequação do markup para preservar rentabilidade;
- revisão dos termos de retenções e repasses.
Destaque para o risco de contratos longos que não contemplem a mudança legislativa e possam gerar margem negativa após a entrada em vigor plena.
6. Governança Contábil e Obrigações Acessórias
A simplificação prometida não elimina a necessidade de:
- acompanhamento de alíquotas do IBS por ente federativo;
- integração entre sistemas de faturamento, ERP e plataformas de projetos;
- consistência no controle de créditos, especialmente em despesas pulverizadas;
- ajustes no plano de contas para refletir a nova estrutura tributária.
Além disso, a padronização da nota fiscal e a adoção de um portal unificado devem exigir adaptações técnicas e integração com APIs dos fornecedores.
7. Estratégias Contábeis e Tributárias Recomendadas
Para minimizar riscos e aproveitar oportunidades, recomenda-se:
- realizar diagnóstico tributário para mapear créditos recuperáveis;
- revisar todos os contratos e propostas comerciais;
- implementar governança para o controle das despesas creditáveis;
- treinar equipes de contabilidade, fiscal e pricing;
- avaliar impactos no fluxo de caixa e na estruturação dos custos fixos;
- simular cenários de migração para o novo regime.
8. Conclusão
A Reforma Tributária representa uma mudança estrutural para as empresas de Pesquisa de Mercado, exigindo forte alinhamento contábil, fiscal e contratual. A correta compreensão da incidência do IBS/CBS, da dinâmica de créditos, da segmentação de despesas e do impacto sobre margens e contratos contínuos será essencial para garantir conformidade e competitividade no novo cenário tributário.
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